O adeus à rainha Mãe Stella

December 28, 2018

Português

 

Quando em 1938, meu tio avô Humberto Porto escreveu no Rio de janeiro a canção ‘Lamento Negro”, com os versos: ‘Ogun de Lodé, Ogun de ilé, Xangô meu pai…’,  gravada com sucesso pelo trio de Ouro, o mercado de música no Brasil ainda não estava nada acostumado a escutar versos que exaltavam os nossos orixás. Na época, o candomblé ainda sofria com perseguições públicas e preconceito. Uma das figuras emblemáticas do candomblé que, com sua sabedoria, trabalhou para ajudar no reconhecimento dos orixás e na superação do preconceito (que infelizmente ainda existe), foi, sem dúvida, a nossa mãe Stella de Oxóssi.

 

Quando no Ilê Axê Opô Afonjá, Dona Aninha, precursora de Mãe Stella, junto com Pierre Verger, trouxeram para Bahia o ministério dos Obás de Xangô e atraíram personalidades emblemáticas da sociedade baiana para o terreiro como Jorge Amado, Dorival Caymmi e Gilberto Gil, ajudaram bastante no reconhecimento da religião africana como importante aspecto cultural do Brasil.

 

Dona Stella de Oxóssi, yalorixá do Ilê Axê Opô Afonjá, é uma rainha. Ela foi uma das yalorixás mais importantes da história dos candomblés. Filha de Oxóssi, o orixá fundamental da Bahia, isso porque diferentemente de Cuba, que recebeu mais iorubás da cidade de Oyo do rei Xangô, a Bahia recebeu em massa iorubás do reino de Ketu, do rei Oxóssi. Por isso Oxóssi foi cultuado e era o “dono” das primeiras casas de candomblé da Bahia.

 

Por isso, nessa cidade todo mundo também é de Oxóssi, portanto todos somos “filhos” da eterna Mãe Stella. Mãe Stella ajudou na desmistificação do sincretismo religioso, quando se posicionava contra o disfarce que associava os santos da igreja católica aos orixás.  “São Jorge é uma entidade, Oxóssi é outra, totalmente diferente”, dizia ela. Já não havia mais razão pra confusão. Os orixás já não precisavam mais se esconder no altar como no tempo da escravidão. Mãe Stella era também escritora e ocupava a cadeira de Castro Alves, na Academia de Letras da Bahia.

 

 

Recentemente, Dona Stella inovou mais uma vez ao recomendar que as oferendas do dia 2 de fevereiro à Yemanjá se fizessem com cânticos e não mais flores de plástico, garrafas de vidro, mostrando assim total sintonia com a preocupação ecológica atual e ancestral, pois a natureza é templo dos orixás. Ao nos deixar fisicamente nessa última quinta-feira do ano (Dia de Oxóssi), sua presença espiritual continuará a nos iluminar como as estrelas do céu. Ficam os ensinamentos que ela nos deixou nos livros que escreveu. Até breve Rainha Stella! Segue em homenagem a mãe Stella a minha canção "Odé Caçador"

 

 

 

 

English

 

When, in 1938, my great-uncle Humberto Porto wrote in Rio de Janeiro the song 'Lamento Negro', with the verses: Ogun de Lode, Ogun de Ilé, Xango my father ... which was successfully recorded by the trio de Ouro, the music market in Brazil was not yet accustomed to listen to verses that decanted and exalted our orixás and Candomblé still suffered with public persecution and prejudice ... One of the emblematic figures of the Brazilian Candomblé that worked to help in the recognition of the Orixás and in overcoming prejudice (which unfortunately still exists), was undoubtedly our mother Stella de Oxóssi.

 

When in the Ilê Axê Opô Afonjá, Dona Aninha, precursor of Mother Stella, together with Pierre Verger, brought to Bahia the ministry of the Obás de Xangô and attracted emblematic personalities from Bahia society to the terreiro, such as Jorge Amado, Dorival Caymmi and Gilberto Gil, among others, helped greatly in the recognition of the African religion as an important cultural aspect of Brazil. Dona Stella of Oxóssi, yalorixá of Ilê Axê Opô Afonjá is a queen. She is one of the most important yalorixás in the history of Candomblés. Daughter of Oxossí, the fundamental orixá of Bahia,  because unlike Cuba, that received more Yorubás from the city of Oyo of king Xango, Bahia received massively Yorubás from the kingdom of Ketu, of the king Oxossí. That is why Oxossí was worshiped and was the "owner" of the first houses of candomblé of Bahia. So in this city everyone is also sons and daughters of Oxossi. Therefore we are all "children" of the eternal Mother Stella.

 

Mother Stella also assisted in the demystification of religious syncretism, when she stood against the disguise that associated the saints of the Catholic Church with the Orixas. "Saint George is an entity, Oxóssi is another, totally different," she said. There was no longer any reason for confusion ... The orixás no longer had to hide at the altar as during the time of slavery ... Mother Stella was also a writer and occupied the chair of Castro Alves in the Bahia Academy of Letters.

 

Recently, Dona Stella innovated once again by recommending that the February 2 offerings to Yemanjá be made with songs and no more plastic flowers, glass bottles and so, showing total harmony with the current and ancestral ecological concern, since nature is the temple of the Orixás ... For all this, by leaving us physically on this last Thursday of the year (Oxosi´s Day), your spiritual presence will continue to enlighten us as the stars of the sky. We stand with her teachings that she left us in the books she wrote. See you soon Stella Queen !! This is my song "Odé Caçador" a tribute to Oxossí  

 

 

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